Untitled

soph me fez dar a volta pra entrar pela frente. a gente não conversava muito, eu não tava a fim de falar nada com ninguém. encontrei dois porteiros e caramba, como eles pareciam felizes em me ver “raquel! oi! tudo bem?! como anda?!” e uma pá de sorriso. um era o da madruga, que gritava meu nome quando eu chegava bêbada feito um gambá lá pelas quatro horas e outro era o cara de panaca que vinha com uns papos bizarros. quando saí de são vicente na portaria tava o porteiro mais maneiro de todos da face da terra - nunca mais vou encontrar um porteiro desses, com certeza. nem me despedi dele. quer dizer, eu me despedi, mas foi uma parada só minha. talvez ele tenha sacado pelo tanto de coisa que eu tava carregando, talvez ele não curta despedidas compartilhadas. a gente sempre se salvava com san marinos, conversávamos sobre coisas ridículas quando eu chegava bêbada, eu flagrava ele desenhando nas madrugadas (e muito bem, aliás) e além de tudo ele é um quarentão enxuto pra porra, careca e com uma voz sexy. (eu já tenho muitas saudades de são vicente) então quando saímos do elevador tinha grudado do lado da porta um balão com os maiores colantes que ela devia ter no caderno e escrito com canetinha “bem vinda de volta”. cara, que irmãzinha legal. meu pai tava feliz também (sacana da porra) me deu o apanhador de centeio com a seguinte dedicatória: raquel, minha ovelhinha (negra) - este livro é a sua cara. espero que o devote. atenção à fala do prof. Antolini - 25 2 13 [cada número envolto por um coraçãozinho, vai entender] e de final a assinatura que ele manda nas petições e outras papeladas do escritório, uns riscos e três pontos. chugu chugu chu, pá pá pá. não sou nada boa pra onomatopeias. tem uma parada engraçada de ver meu pai assinando as paradas, parece que qualquer caneta desliza perfeitamente na mão do velho. bom, eu tinha uma pequena vontadezinha de agarrar os joelhos e chorar baixinho mas me segurei. passei pela porta, e lá estava ela, ah, ela! me admira como ela parece não fazer a mínima ideia do quão insuportável pode ser. seu primeiro comentário: olha! de sandálias! que garotinha! hehehe! puta cara, se eu fosse de dar murros nas pessoas eu mandaria um no estômago. mas né, como não sou, deixa essa cretina pra lá. o bob me recepcionou lindamente, como belo salsichinha que é, e a gente até deu aquela voltica pelo canal com direito àquele cigarro gostoso depois duma chuva. o banheiro tinha aquele mesmo cheiro característico de perfumador de ar que me dá mais tristeza do que os olhos da minha mãe. e olha que, meu chapa, os olhos dela são enormes e azuis e ela tem uma pintinha no esquerdo, caramelo. cada mijada vai ser isso aí, eu realmente não faço ideia do que ta por vir mas esses dois meses vão ser longos e um caralho só. por falar em caralho, essa casa também me excita e eu já me masturbei três vezes olhando prum quadro de girassóis sendo que nos meses que fiquei fora não me lembro de me ligar nessas coisas, só queria mesmo beijar aquele pinguço do andar de baixo, só um beijo, nem mesmo uma chupada. e aqui me dá maior vontade de escrever e as coisas fluem tão rápido e to um pouco bêbada, e céus, aqui é realmente triste.

os gemidos daquela mina me perseguiram o dia inteiro. baixinhos, como quem não queria tar fazendo barulho mas não dava pra segurar; eu sabia a porra do ritmo que eles tavam no quarto ao lado. na hora eu tava bêbada demais e não dei a mínima, só fiquei escutando, até achei engraçado. e eis eu na bendita rebordose ouvindo os gemidinhos gostosos duma mina que a única coisa que sei é que não conheço. ela tava gemendo há umas 10 horas atrás.

da primeira vez eu fiquei encarando um maço de san marino amassado duma bela forma: a mais difícil, que requeria certa força. eu com meus bracinhos só teria a manha de fazer aquilo num estado de explosão. fico pensando com quem diabos ele parece. talvez seja uma mistura de jackie chan com rodolfo do raimundos. uma desgraça só, tipo de coisa que me atrai.
doutra me vi de repente em pé na areia, olhando o mar. ele tava do lado esquerdo. “vai entrar?” e nós tiramos as roupas e saí correndo. despertei no dia seguinte coa lembrança da cabeça dele saindo pra fora d’água que parecia um pouco esverdeada, ou tava mesmo, e os cílios pingavam as gotinhas e aquilo ficava muito bem nele. em um momento qualquer nos beijamos e eu posso ainda sentir a forma como a língua deslizava perfeitamente e o gosto salgado.
quando cheguei eram quatro e tava quente, guardei a bicicleta e ele sai do elevador. pedi um cigarro e fumamos no portão, eu fiquei perguntando de babaquices e ele respondia sem o mínimo interesse, e foi aí que acabei indo parar na casa dele porque tinha um final de balalaika com fanta de maracujá. na porta tinha uma máscara do pânico e dentro era tudo meio assim. um cara tava jogando videogame e outro tava perambulando pelos dois cômodos do apartamento. eu não associei mais nada direito depois disso. umas nove horas saí pra trabalhar, tomei um banho e dei um beijo na silvia “tá loucona, né, caralho” e fui pra cubatão com a sensação terrível de quem cheirou alguma merda. as coisas todas faziam mais sentido e eu era mais comunicável aliás. meu pai me disse que o porteiro contou sobre eu deixar e buscar a bicicleta altas horas das madrugadas num estado de embriaguez                  . e que respondeu “cara, eu não sei mais o que fazer” mas eu aposto que ainda consigo sair da cidade. 
numa noite de conhaque e cerveja demais encontrei o givaldo depois de vomitar numa rua que não sei se conhecia. eu disse pra ele, “tem alguma coisa diferente contigo” e ele sorriu e disse, “ah é?” e foi aí que eu percebi que ele tinha todos os dentes. eu preferi não dizer mais nada, o sorriso dele era bonito, mas me veio a lembrança da minha língua passando pelos buraquinhos desdentados da gengiva e quase vomitei de novo. geralmente esqueço do que aconteceu quando bebi mas lembro de todas as texturas diferentes que minha língua experimentou. creio, na verdade, que meu problema com a memória não vem da bebida e sim da bebida com a maconha, que tá sempre presente no bolso de alguém, e eu acabo sempre presente numa roda de fumo. todas essas coisas ficam me perturbando dum jeito quase gostoso enquanto levo uma coisa pralí, outra praquí, fumo um cigarro e chupo balinhas de hortelã pra tirar o gosto de morte da boca. 
então da ultima vez ele colocou milo goes to college pra tocar e tomamos uma pinga qualquer. as cores que tem no rosto, em volta dos olhos, e na boca… eu não devia me apaixonar por ninguém, eu penso, e olho pra ele, que permanece indiferente. eu queria tar indiferente também. quem sabe eu esqueça depois, mas enquanto pelo menos dez minutos depois de acordar me vem as gotinhas caindo dos cílios dele na cabeça, eu tenho certeza, tem algo errado por aqui. a vida não interessa muito pra mim “tua cara ta vermelha” “a tua também” “tamos bêbados” as coisas todas se arrastavam. ele olhou uma mancha perto do seu cotovelo “tá vendo essa mancha? quando ela tá escura é porque to vermelho, e bêbado” “legal. parece aquela coisa que tem numas latinhas quando gelam ficam azuis” “exato”
it’s all been so beastly
lovely,
this mad river,
this gouging
plundering
madness
that I would wish upon
nobody
but myself,
amen.

Hangovers, Charles Bukowski

from The Last Night of the Earth Poems (1992)

minha mãe me comprou dois maços de cigarros. silvia é uma ex-usuária de crack. tem uma filha mó bonita de quinze anos e começou a fumar quando chegou ao ponto de terem que assoprar a coca por um canudo dentro do nariz dela. da sua janela dá pra ver os mesmos navios lá longe enquanto fumo meu cigarro sentindo os olhos inchados. cobri minhas olheiras com um pó compacto da mayara (bonitinha de 15) e sorri por uns vinte minutos na entrevista de emprego falando umas mentiras e agora quem sabe alguma grana venha. meu pai surtou, deve tá vivendo dopado de tarja preta, mandou a silvia me botar pra fora, disse que queria me ver na sarjeta, perguntou se ela sabia que eu me envolvo com drogas. hah. já não sei quantas vezes fui e voltei, são vicente pra santos, de bicicleta ouvindo qualquer banda paulera pra espantar essa bosta. só funciona com volume máximo enquanto to pedalando o mais rápido que posso, depois passa, mas é alguma coisa pelo menos. depois minhas coxas latejam e também é agradável. ouvi meu irmão dizer que me ama, a gente nunca diz essas coisas. a gente mal se cumprimenta com um beijo no rosto ou abraço. ele ficou bonitinho dizendo que tá preocupado e sobre como nossos pais são uns loucos e que até hoje ele não acredita em casamento por eles e tal e tudo. na casa da silvia não tem muito o que se fazer e ela tentava alguma coisa quando me pegava com olhos tristes fixos numa parede qualquer. talvez eu tivesse com medo dessa merda, talvez eu esteja ainda, mas essa tristeza mais visível no meu olhar é só por alguma bosta com os meus pais. eu tenho algum sentimento escroto escondido sobre eles. todo mundo diz que é pelas brigas que eu presenciava quando era pequena, mas não lembro e não sei. os dois são realmente pirados. minha mãe não consegue se concentrar pra escolher a porra duma esfiha do cardápio. meu pai tenta criar um personagem pra falar comigo pela internet depois de me expulsar de casa. e minha vó tem esse jeito cínico desgraçado e acha que pruma mulher sair de casa tem que ser pra casar. casamento, que bela merda. eu não consigo nem uma maldita boa foda. to conhecendo mais caras por aí mas só consigo os mais malas no meu pé. os que eu curto são uns idiotas. os malas tem essa preocupação mais bonita e tudo mas porra, como são malas! só acho que seria bom ter alguém pra me beijar os olhos. sempre gostei mais de são vicente. é a cidade mais mal falada por aqui. no segundo dia de enem, naquela ânsia escrota de ressaca junto com bosta explodindo, comecei a sentir que minha calcinha tava molhada. não tava excitada com porra nenhuma, achei que fosse menstruação mas preferi nem ir no banheiro olhar sabendo que não adiantaria nada além de me fazer ficar mais nervosa. mas quando acabei a prova e fui ver era só um pouco de xixi. depois disso eu tava a todo momento com esse pouco de xixi, parecia uma retardada que não conseguia se segurar. me sentia na pré-escola quando mijei sentada na carteira e tinha aquela sensação do xixi quentinho se espalhando por toda a bunda seguida de vergonha. tinha sentido isso recentemente quando tava bêbada de calcinha no sofá dum cara e derrubei cerveja em mim e por ser um estofado de couro fez aquela poça de breja na minha bunda. foi mó gostoso mas tive que me desculpar pela sujeira. eu tenho um desvio na uretra que sempre me fodeu e minha mãe me disse hoje que problema urinário é coisa de medroso. mas parei de me mijar ontem. não que eu seja uma corajosa agora. lavar calcinha toda hora é um saco. queria que alguém me desse um peixe num aquário então eu teria algo pra olhar.

minha mãe me comprou dois maços de cigarros. silvia é uma ex-usuária de crack. tem uma filha mó bonita de quinze anos e começou a fumar quando chegou ao ponto de terem que assoprar a coca por um canudo dentro do nariz dela. da sua janela dá pra ver os mesmos navios lá longe enquanto fumo meu cigarro sentindo os olhos inchados. cobri minhas olheiras com um pó compacto da mayara (bonitinha de 15) e sorri por uns vinte minutos na entrevista de emprego falando umas mentiras e agora quem sabe alguma grana venha. meu pai surtou, deve tá vivendo dopado de tarja preta, mandou a silvia me botar pra fora, disse que queria me ver na sarjeta, perguntou se ela sabia que eu me envolvo com drogas. hah. já não sei quantas vezes fui e voltei, são vicente pra santos, de bicicleta ouvindo qualquer banda paulera pra espantar essa bosta. só funciona com volume máximo enquanto to pedalando o mais rápido que posso, depois passa, mas é alguma coisa pelo menos. depois minhas coxas latejam e também é agradável. ouvi meu irmão dizer que me ama, a gente nunca diz essas coisas. a gente mal se cumprimenta com um beijo no rosto ou abraço. ele ficou bonitinho dizendo que tá preocupado e sobre como nossos pais são uns loucos e que até hoje ele não acredita em casamento por eles e tal e tudo. na casa da silvia não tem muito o que se fazer e ela tentava alguma coisa quando me pegava com olhos tristes fixos numa parede qualquer. talvez eu tivesse com medo dessa merda, talvez eu esteja ainda, mas essa tristeza mais visível no meu olhar é só por alguma bosta com os meus pais. eu tenho algum sentimento escroto escondido sobre eles. todo mundo diz que é pelas brigas que eu presenciava quando era pequena, mas não lembro e não sei. os dois são realmente pirados. minha mãe não consegue se concentrar pra escolher a porra duma esfiha do cardápio. meu pai tenta criar um personagem pra falar comigo pela internet depois de me expulsar de casa. e minha vó tem esse jeito cínico desgraçado e acha que pruma mulher sair de casa tem que ser pra casar. casamento, que bela merda. eu não consigo nem uma maldita boa foda. to conhecendo mais caras por aí mas só consigo os mais malas no meu pé. os que eu curto são uns idiotas. os malas tem essa preocupação mais bonita e tudo mas porra, como são malas! só acho que seria bom ter alguém pra me beijar os olhos. sempre gostei mais de são vicente. é a cidade mais mal falada por aqui. no segundo dia de enem, naquela ânsia escrota de ressaca junto com bosta explodindo, comecei a sentir que minha calcinha tava molhada. não tava excitada com porra nenhuma, achei que fosse menstruação mas preferi nem ir no banheiro olhar sabendo que não adiantaria nada além de me fazer ficar mais nervosa. mas quando acabei a prova e fui ver era só um pouco de xixi. depois disso eu tava a todo momento com esse pouco de xixi, parecia uma retardada que não conseguia se segurar. me sentia na pré-escola quando mijei sentada na carteira e tinha aquela sensação do xixi quentinho se espalhando por toda a bunda seguida de vergonha. tinha sentido isso recentemente quando tava bêbada de calcinha no sofá dum cara e derrubei cerveja em mim e por ser um estofado de couro fez aquela poça de breja na minha bunda. foi mó gostoso mas tive que me desculpar pela sujeira. eu tenho um desvio na uretra que sempre me fodeu e minha mãe me disse hoje que problema urinário é coisa de medroso. mas parei de me mijar ontem. não que eu seja uma corajosa agora. lavar calcinha toda hora é um saco. queria que alguém me desse um peixe num aquário então eu teria algo pra olhar.

Machete - A queda do homem

a queda do homem - machete

THE STRONGEST OF THE STRANGE

você não vai vê-los direto

pois onde a multidão estiver

eles

não estão.

*

estes esquisitos, não

são muitos

mas deles

vêm

os poucos

bons quadros

as poucas

boas sinfonias

os poucos

bons livros

e outras

obras.

*

e dos

melhores destes

estranhos

talvez

nada.

*

eles são

seus próprios 

quadros

seus próprios

livros

sua própria

música

sua própria

obra.

*

às vezes acho

que os

vejo - digamos

um certo

senhor

sentado num

certo banco

de um certo

jeito

*

ou

um rosto rápido

virando pro outro

lado

num automóvel

que passa

*

ou

há um certo movimento

das mãos

de um empacotador ou

empacotadora

enquanto empacota

as compras

do supermercado.

*

às vezes

é até mesmo alguém

com quem você

viveu

por um

tempo - 

você irá notar

um

rápido aclarar

no olhar

nunca visto

neles

antes.

*

às vezes

você só irá notar

as suas

existências

subitamente

em

vívidas

recordações

alguns meses

alguns anos

após eles terem

partido.

*

eu me lembro

de um

tal -

ele tinha uns

20 anos

bêbado às

dez da manhã

olhando para um

espelho 

partido

de Nova Orleans.

*

rosto sonhando

contra os

muros

do mundo

*

para onde

eu 

fui?

que tal se sairmos dessa merda?

eu queria grudar um pequeno quadradinho na minha língua e simplesmente sentar numa poltrona pra esperar que ele haja. eu permaneceria lá, fumando um cigarro, uma cerveja também é bom, e esperaria pacientemente até que minha visão mudasse e quem sabe minhas pernas não mais conseguiriam ficar ali. não tenho papel, nem poltrona, nem paz. eu me levantei e abri uma latinha. me servi numa taça longa e acendi um cigarro. sentei meu rabo no parapeito gelado da varanda e tentei me contentar com as luzinhas brancas da rua que se mexiam quando eu olhava para baixo. olhava pra baixo e voltava a encará-las rapidamente para ver se flagrava suas brincadeiras com meus olhos. mas elas são mais rápidas. não se pode com a velocidade da luz, eu deveria estar estudando algo do tipo para o vestibular que tá chegando. na verdade, eu gostaria de algo novo. totalmente novo. algo que me apavorasse e dois segundos depois me fizesse gargalhar. um maluco que nunca vi me oferecendo. por aqui, nada novo. mesmas pessoas tentando parecer fora do comum e ninguém que te choque de verdade. ou se fuma na praia até não conseguir mover um músculo, ou se enche a cara em alguma bar falando merda, ou se toma doces e balas nalguma festa escrota, ou se cheira o pó mais terrível e roda a cidade caçando bitucas. eu queria algo novo. um soco no estômago. algo que se injete na porra do braço ou mesmo se pingue nos olhos. as formas como se usa fazem toda a diferença. sensações diferentes também me ajudariam. o máximo que consegui essa semana foi na porra dum mcdonalds. eu tava com a bandeja em mãos prestando atenção pro meu refrigerante não cair. meus copos sempre caem. mas nesse eu tava de olho; porque ele custou o meu olho. então olhei em volta e todas as mesas estavam ocupadas. todas. quase não pude acreditar naquilo, tava tentando arrumar uma forma de esperar em pé segurando uma bandeja sem me sentir mal. impossível até que um rapaz atrás de mim me chama por senhorita. me viro “você tá sozinha?” to, eu digo. “pode sentar aqui se quiser”. ele tava sozinho vestido de azul. me sentei no lado oposto ao dele, era uma mesa de quatro lugares. agradeci e ele parecia não estar fazendo porra nenhuma ali. abri a caixinha e comecei a devorar meu bigmac bem rápido, porque é o que acabo fazendo sempre que tenho um sanduíche em mãos. ele só me olhou e tentou se distrair noutras coisas. comecei a ouvir a voz duma mulher falando sem parar sobre outras pessoas. “e o edson? ah, o edson vai ser médico! faltam quatro anos! a dona maria faleceu, que deus a tenha! grande dona maria!” olhei pra trás e era uma mulher descabelada falando com uma foto antiga de uma pessoa e um monte de papéis escritos sobre a mesa. não tinha mais ninguém. voltei pro sanduíche. e as batatas, que tavam murchas. “essa mulher que tá aqui atrás…” olhou pra mim com aquele olhar de ‘disfarça’ “…tá falando sozinha”. “é…”. levantou e foi buscar um pratinho com sashimis. eram uns seis. tinha uma barraquinha japonesa ao lado. essas porras tem em todo lugar agora. foquei na coca-cola. “mas e a lurdes? nossa!! verdade?! ela nem me contou que tinha se casado!” e o rapaz tava lá com dois palitinhos e uma puta dificuldade pra pegar um daqueles filézinhos com eles. “tá meio difícil aqui…” olhei pra ele, mastigando. tava lutando pra valer com o peixe cheio de shoyo. ele tentava agarrar por cima. “cara, tenta colocar um dos palitos por baixo e aí você aperta com o outro por cima” tentou. fez exatamente isso mas tava tremendo demais e não conseguia levantar aquela porrinha. “eu tenho esclerose. não consigo fazer isso. que será que um japonês esclerosado faz pra comer?” “não sei, vê se os caras tem um garfo” não tinham. ele espetou tudo e terminou de comer. e essa é a porra da história mais sensacional que pode me acontecer ultimamente. e ninguém incrível vai aparecer pingando novidades nos meus olhos. e eu devia me acostumar com isso pelo menos.

mijo que cheira a café. era um banheiro pequeno e tinha uma privada azul, o que lembra a minha mãe, mas só me veio a imagem da cara de sono com cabelo bagunçado dela e depois sumiu. fiquei lá sentada um tempo sentindo aquele cheiro quase gostoso. depois descobri um gato dormindo dentro da pia, tive que expulsá-lo pra lavar a cara e fazer um bochecho com pasta de dente e água. ele saltou, se espreguiçou e ficou se roçando nas minhas pernas. era uma companhia melhor do que a que tava no quarto, eu já tava sabendo. mas, fazer o que agora? abaixei a tampa da privada e fumei um cigarro com aquela cara manchada preta e branca me olhando tranquilamente. po, eu nem tomei café, só que eu devia tá pensando numa desculpa pro meu pai e não nisso. eu sabia que já tava tudo fodido, o sol tava alto e nenhuma palavra minha faria sentido. tinha um maço pela metade e um isqueiro num banquinho. um puta banheiro bacana eu diria. se bem que, de qualquer forma, banheiros são bacanas. eu lembro de gostar de banheiros desde onde me lembro. é um refúgio que tem em quase todos os lugares. tenho usado muito ultimamente pra vomitar bebida, pra continuar a beber. muitas vezes só enfiar o dedo na garganta e arrotar já resolve. o problema tá em arrotar talvez. não sei arrotar então meu estômago se enche de gás e mais a bebida e me faz querer vomitar. enfio o dedo e arroto, meus olhos enchem de lágrima. lembro de usar esse refúgio pra chorar quando era pequena. o banheiro. ainda uso pra isso as vezes mas não tanto. lembro bem de me trancar pra chorar quando meus pais brigavam com meus irmãos, ou eles brigavam entre si. uma bobagem porque eram brigas idiotas de família, ninguém chegava a apanhar ou algo assim. eu sentava no chão e chorava muito e baixo. também quando tinha que ir pra casa do meu pai nos fins de semana por uma decisão da “justiça” e sentia saudades da minha mãe. banheiro também salva pra quem nunca teve um quarto pra si, é um lugar da casa que cê pode ficar sozinho afinal. porra, eu poderia citar um monte de coisas bacanas sobre banheiros. por exemplo, filosofias de porta de banheiro: “adoro chupar um pau” “raspe sua xana, o amor não tem hora pra chegar” “dá cu é bom” “natalia nãoseidasquantas é uma chifruda”. fico imaginando que porra passa na cabeça duma mulher que tem uma caneta num banheiro e resolve desabafar umas merdas dessas. as vezes errorex, que é pior ainda. todo mundo pode ser triste num banheiro, porque ninguém vê. o problema é que uma hora ou outra tu vai ter que sair de lá e enfrentar o que tá de fora, voltar a sorrir ou não é uma escolha, mesmo que inconsciente. joguei a bituca pela janela e abri a porta com cuidado, o gato saiu primeiro. tinha um poodle branco abanando o rabo do lado de fora. os poodles brancos parecem os cachorros mais estúpidos que podem existir. eles tem essa mistura de apartamento com miséria disfarçada, ou sei lá o que, tão sempre felizes. voltei pro quarto, tava calmo e escuro, um barulhinho de ventilador. comecei a procurar minhas roupas que tavam todas pelo chão. fui vestindo conforme achava, calcei os pés, tava sem nenhuma pressa. sentei numa mesa cheia de colantes e dichavadores. fumei mais um cigarro sem nenhum sentimento ou pensamento certo, só observava aquele monte de informação pelas paredes e a bunda branca meio de lado. apaguei e saí do quarto. no corredor ouvi um barulho de alguém digitando. fiquei ali  parada mais um tempo, só pra tomar uma coragem e engolir saliva pra dizer um “oi” qualquer antes de ir embora. respirei. uh. fui. olhei pra esquerda, era a mãe dele provavelmente. me viu e tomou um susto. “bom dia” “bom dia”, fiquei nervosa, não gosto dessas situações. fui abrir a porta, tava trancada. virava a maçaneta, as chaves; tava emperrada. fiquei puxando, balançando, forçando, olhava pra esquerda, ela tava la coa mão no mouse me olhando. com pena. caralho, quanto tempo pode durar uns minutos desses? ah, que porra. olhei pra ela mais uma vez. respirei fundo, virei as chaves o máximo que deu e fiquei segurando, virei a maçaneta e puxei com tudo. nada. olhei pra ela. quanta dó de mim, não dizia uma palavra sequer. voltei pra porta, encostei as duas mãos nela e observei bem. AH! CARALHO! tinha um trinco redondinho na parte de cima. filha da puta! esse caralho eu conhecia bem, tinha um na casa da minha mãe. tinham dois na verdade. são trincos antigos e abrem virando do lado contrário. foi o que fiz, destrancou na primeira. abri a porta um pouquinho, olhei pra mulher, dei um sorriso vitorioso e fui embora. no elevador me dei conta de que não fazia ideia de qual lugar da cidade era aquele. nem a mínima. saí na rua e também não reconheci porra nenhuma, então parei uma velha passeando com o cachorro: a senhora sabe pra que lado fica o canal três? “CANAL TRÊS?!” puta merda, pelo espanto dela devia tá pro lado do cu do mundo. “fica pra lá, BEM pra lá!” ih, caralho. mas não era tanto assim, eu tava pouco depois do canal dois. velhas exageram. segui sem pressa. cheguei. meu pai tava lá, sem expressão. me deitei na cama. ele parou na porta: sai daqui, vai dormir onde tu passou essa noite. e foi embora. quando ele fala calmo eu sei que a porra tá séria. pus uma roupa mais confortável e me fui. meu banheiro cheirava àqueles perfumadores de ar. ele sempre cheira assim agora. coisas de madrasta; eu preferia a porcelana azul e encardida da minha mãe. segui sem entender minha existência, mais do que nunca, até o ponto de ônibus. peguei um pro casqueiro, onde minhas duas avós moram, uma delas coa minha mãe: pra onde eu iria. cheguei e era a mesma coisa maçante de sempre. atravessar uma puta passarela e seguir pelo bairro onde ce passou toda a infância. quando finalmente cheguei no portão de alumínio e toquei a campainha… nada. nadinha além dos latidos da vira-latas. AHHH!! ir pra casa da outra vó não era uma opção. não consigo nem imaginar ela me vendo naquele estado deplorável. voltei pra santos. pra casa. mil anos no ponto. comprei uns salgados na padaria que tinha o mesmo caixa de uns oito anos atrás. e o puto me reconhecia. voltei. meu pai abriu a porta. espantado pra porra, mais que a velha que eu perguntei onde ficava o três. dei aquela explicação barata de sempre. peguei as chaves que minha mãe tinha me dado um dia e voltei pro ponto e voltei pra passarela e por todo o bairro. porra, quando eu finalmente vi aquele portão de alumínio e o abri e senti as patas da cadelinha na minha barriga e ouvi o papagaio gritando e vi todo aquele quintal me dando finalmente a porra dum bom dia, foi demais. meus olhos se encheram de lágrima. destranquei a porta sem problemas. segui pro quarto: o banheiro era no caminho; dei uma olhada. o mesmo. gosto daquele banheiro também. ele tem uma cortina pro chuveiro e uma cordinha vermelha e branca que segura a porta aberta. passei reto. vi a cama. vi a cama. que cama. cama com cheiro de mãe com cara de sono e cabelo bagunçado. fazia umas duas semanas que não a via, e nem a vi nesse dia, mas dormir naquela cama foi todo o sentimento nostálgico de choro num banheiro azul que eu senti que precisava mijando café. sei lá como. sei lá como qualquer coisa dessas.